Conceito de educação “bancária” aplicado na aquisição da CNH




O presente texto abordará brevemente a concepção de educação “bancária” como instrumento de opressão, por Paulo Freire, inserido no contexto recente da educação veicular para a obtenção da carteira nacional de habilitação.
Atualmente, para a aquisição da permissão para dirigir nas categorias A e/ou B através da carteira de habilitação, cabe ao futuro condutor cumprir o total de quarenta e cinco horas de aulas teóricas divididas em cinco áreas (Legislação de trânsito, Direção defensiva, Meio ambiente e convívio social e noções de primeiros socorros e Mecânica). Só após o termino dessas aulas e a aprovação no exame do conteúdo teórico que se pode dar prosseguir às aulas práticas e seu respectivo exame. A maioria das aulas, principalmente as últimas, quer dar conta apenas da aprovação no exame prático, elas não visam o real aprendizado da prática veicular.
Os alunos (depositários) recebem apenas os “depósitos” obedientemente do instrutor (depositante) e se esforçam para repetir de maneira eficaz o que foi depositado, uma vez que sabem que qualquer atitude que fuja do que está pré-determinado pode implicar numa possível reprovação.


No dia do exame, o aluno aplica exatamente o que estuda em suas aulas, com a diferença que está em um momento decisivo. Ele é avaliado por duas pessoas, em uma data pré-estabelecida pelo Detran, e precisa seguir exatamente o determinado para obter a aprovação. Tal exame não se configura um bom método avaliativo por não julgar se o aluno sabe dirigir. Daí surge os inúmeros relatos de pessoas que dirigem diariamente sem a carteira de habilitação e mesmo assim no dia não conseguem ser aprovados no exame, bem como de pessoas que nunca dirigiram, mas no dia conseguem realizar o exame com êxito. O que é avaliado é apenas a capacidade de memorização, atenção, e não leva em consideração que essa situação pode gerar nervosismo e ansiedade que muitas das vezes são definidores; afinal, o avaliado sabe que tem apenas três minutos para colocar o veículo dentro de uma vaga, que não pode esquecer os “comandos”, e que deve realizar exatamente o que o órgão exige diante de os examinadores.

Paulo Freire diz que ao analisar as relações educador-educandos percebe-se que são relações narradoras ou dissertadoras, ou seja, narra e disserta-se sobre o conteúdo até que ocorra a memorização mecânica e repetição dos mesmos. “Eis aí a concepção “bancária” da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los”. E é assim que ocorre com a educação veicular, na qual os educadores são responsáveis por narrar os conteúdos até que se dê a memorização e repetição pelos educandos. Sendo assim, não há uma troca de conhecimentos; o educador permanece na posição de autoridade - onde o educando não tem voz e são os que não sabem -, e apenas deposita a narração a fim de que ela seja reproduzida passivamente sem lugar para o pensamento crítico, o compartilhamento de ideias ou até mesmo a criatividade.

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