Conceito de educação “bancária” aplicado na aquisição da CNH
Atualmente, para
a aquisição da permissão para dirigir nas categorias A e/ou B através da
carteira de habilitação, cabe ao futuro condutor cumprir o total de quarenta e
cinco horas de aulas teóricas divididas em cinco áreas (Legislação de trânsito,
Direção defensiva, Meio ambiente e convívio social e noções de primeiros
socorros e Mecânica). Só após o termino dessas aulas e a aprovação no exame do
conteúdo teórico que se pode dar prosseguir às aulas práticas e seu respectivo
exame. A maioria das aulas, principalmente as últimas, quer dar conta apenas da
aprovação no exame prático, elas não visam o real aprendizado da prática
veicular.
Os alunos (depositários) recebem
apenas os “depósitos” obedientemente do instrutor (depositante) e se esforçam
para repetir de maneira eficaz o que foi depositado, uma vez que sabem que
qualquer atitude que fuja do que está pré-determinado pode implicar numa
possível reprovação.
No dia do exame,
o aluno aplica exatamente o que estuda em suas aulas, com a diferença que está
em um momento decisivo. Ele é avaliado por duas pessoas, em uma data
pré-estabelecida pelo Detran, e precisa seguir exatamente o determinado para
obter a aprovação. Tal exame não se configura um bom método avaliativo por não
julgar se o aluno sabe dirigir. Daí surge os inúmeros relatos de pessoas que
dirigem diariamente sem a carteira de habilitação e mesmo assim no dia não
conseguem ser aprovados no exame, bem como de pessoas que nunca dirigiram, mas
no dia conseguem realizar o exame com êxito. O que é avaliado é apenas a
capacidade de memorização, atenção, e não leva em consideração que essa
situação pode gerar nervosismo e ansiedade que muitas das vezes são
definidores; afinal, o avaliado sabe que tem apenas três minutos para colocar o
veículo dentro de uma vaga, que não pode esquecer os “comandos”, e que deve
realizar exatamente o que o órgão exige diante de os examinadores.
Paulo Freire diz
que ao analisar as relações educador-educandos percebe-se que são relações
narradoras ou dissertadoras, ou seja, narra e disserta-se sobre o conteúdo até
que ocorra a memorização mecânica e repetição dos mesmos. “Eis aí a concepção
“bancária” da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos
educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los”. E é assim
que ocorre com a educação veicular, na qual os educadores são responsáveis por
narrar os conteúdos até que se dê a memorização e repetição pelos educandos.
Sendo assim, não há uma troca de conhecimentos; o educador permanece na posição
de autoridade - onde o educando não tem voz e são os que não sabem -, e apenas
deposita a narração a fim de que ela seja reproduzida passivamente sem lugar
para o pensamento crítico, o compartilhamento de ideias ou até mesmo a
criatividade.
Comentários
Postar um comentário